Os mais de 200 disparos que mataram Jorge Rafaat Toumani em Pedro Juan Caballero, em 15 de junho de 2016, não encerraram apenas a trajetória de um dos traficantes mais influentes da fronteira. Segundo autoridades de segurança, o atentado abriu espaço para a expansão das facções criminosas e transformou Mato Grosso do Sul em um dos principais palcos da disputa pelo controle das rotas internacionais do tráfico.
Considerado um marco na história do crime organizado na região, o assassinato ocorrido em 15 de junho de 2016 é apontado por autoridades como o início de uma nova fase marcada pela expansão das facções criminosas, aumento dos homicídios e intensificação das disputas pelo controle das rotas do tráfico.
A avaliação é do inspetor Waldir Brasil, chefe da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Dourados. Segundo ele, a morte de Rafaat representou um divisor de águas na dinâmica do narcotráfico na fronteira.
“A morte de Jorge Rafaat em 2016 é um divisor de águas no que tange ao crime organizado. Após a execução, notamos a expansão em toda a faixa de fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai”, afirmou ao Campo Grande News.
De acordo com o inspetor, antes do assassinato havia uma estrutura criminosa mais concentrada em lideranças já conhecidas pelas forças de segurança. Com a queda de Rafaat, o cenário mudou radicalmente.
“Antes da morte de Rafaat, nós sabíamos quem eram as figuras carimbadas que comandavam o tráfico de drogas. A partir de 2016 houve a instalação de várias facções na fronteira, aumentaram as lideranças e, consequentemente, houve o aumento da criminalidade. Homicídios, roubos e furtos de veículos, tráfico de drogas e armas se avolumaram nas cidades fronteiriças”, destacou.
A execução que mudou a fronteira
Jorge Rafaat foi morto por volta das 18h50 do dia 15 de junho de 2016, em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia separada por uma avenida de Ponta Porã. A execução ocorreu próximo ao mercado municipal e foi planejada nos mínimos detalhes.
Na ocasião, o traficante seguia em uma caminhonete Hummer blindada, acompanhado por cerca de 30 seguranças. Para executá-lo, os rivais mobilizaram aproximadamente 100 pistoleiros e utilizaram armamento de guerra, em uma operação que teria custado cerca de US$ 1 milhão.
O principal instrumento do atentado foi uma metralhadora antiaérea calibre .50, arma de uso militar com cerca de 100 quilos, adaptada à carroceria de uma Toyota Fortuner. Os criminosos fecharam ruas próximas, utilizaram bloqueadores de sinal de celular e dispararam mais de 200 tiros até perfurar a blindagem da Hummer.
Rafaat morreu no local. Cinco seguranças ficaram feridos durante o confronto.
Segundo relatos da época, o ataque aconteceu a apenas 200 metros da Segunda Delegacia de Pedro Juan Caballero. Policiais chegaram a trocar tiros com os criminosos, mas não conseguiram impedir a fuga do grupo.
Os atiradores abandonaram no local um verdadeiro arsenal de guerra, incluindo o fuzil calibre .50, fuzis AK-47, metralhadoras, pistolas 9 milímetros e dezenas de coletes balísticos.
Quem era o “Rei da Fronteira”
Natural de Ponta Porã e com dupla nacionalidade, brasileira e paraguaia, Jorge Rafaat se formou em Direito antes de construir sua trajetória no comércio de Pedro Juan Caballero. A partir do final da década de 1980, passou a atuar no narcotráfico e consolidou uma poderosa estrutura logística na fronteira.
Nos anos 1990, aliou-se ao traficante Luiz Carlos da Rocha, o “Cabeça Branca”, criando uma rede de transporte de cocaína oriunda da Bolívia e do Peru para abastecer o mercado brasileiro.
Sua influência transformou Rafaat em uma das figuras mais poderosas da fronteira. Em 2014, ele foi condenado pela Justiça Federal brasileira a 47 anos de prisão por tráfico internacional de drogas e outros crimes.
Segundo investigações conduzidas à época, Rafaat dificultava a expansão de organizações criminosas brasileiras na fronteira. Para eliminá-lo, foi formada uma aliança entre integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV).
O plano teria sido articulado por Elton Leonel Rumich da Silva, conhecido como “Galã”, em parceria com o narcotraficante Jarvis Chimenes Pavão, que cumpria pena no Paraguai.
O operador da metralhadora .50 foi identificado como Sergio Lima dos Santos, integrante do Comando Vermelho. Baleado pelos seguranças de Rafaat durante o ataque, ele acabou preso e posteriormente condenado a 35 anos de prisão pela Justiça paraguaia.
O rastro de sangue
A morte de Rafaat alterou profundamente o mapa do crime organizado na fronteira. O território passou a ser disputado por diferentes grupos criminosos interessados no controle das rotas internacionais de drogas e armas.
Pouco tempo após o atentado, a aliança entre PCC e CV chegou ao fim. As duas facções iniciaram uma guerra que se espalhou por presídios e cidades de todo o país, resultando em massacres e centenas de mortes.
Em Mato Grosso do Sul, os reflexos foram imediatos. Houve aumento dos roubos de veículos utilizados como moeda de troca por drogas, além do crescimento de execuções ligadas ao narcotráfico.
A violência também atingiu antigos aliados de Rafaat. Em outubro de 2018, Orlando da Silva Fernandes, conhecido como “Bomba” e ex-chefe de segurança do traficante, foi executado a tiros de fuzil em Campo Grande, em uma ação semelhante à que matou o antigo chefe.
O médico legista paraguaio Marcos Prietto Vera, responsável pela autópsia de Rafaat, chegou a afirmar que o caso marcou uma mudança no perfil dos assassinatos ligados ao crime organizado. Segundo ele, execuções realizadas com armas curtas deram lugar a atentados públicos com armamento pesado, utilizados como demonstração de força pelas novas lideranças criminosas.
Combate mais sofisticado
Uma década depois, as forças de segurança afirmam que precisaram adaptar suas estratégias para enfrentar organizações criminosas mais estruturadas e pulverizadas.
Segundo Waldir Brasil, o combate ao narcotráfico deixou de depender apenas de abordagens em rodovias e passou a exigir integração entre diferentes instituições, compartilhamento de informações e ações de inteligência.
“Para reduzir a criminalidade, os órgãos de segurança pública fortaleceram a integração, realizaram operações interagências, bem como um grande incremento na inteligência policial”, afirmou.
Atualmente, além das apreensões de drogas, armas e veículos, as investigações buscam atingir a estrutura financeira das organizações criminosas e identificar toda a cadeia logística utilizada pelo tráfico internacional.
Dez anos após os disparos de metralhadora que ecoaram pelas ruas de Pedro Juan Caballero, a morte de Jorge Rafaat continua sendo lembrada como um dos episódios mais emblemáticos da história da fronteira. Para autoridades e especialistas, o atentado não apenas eliminou um dos maiores traficantes da região, mas inaugurou uma nova era de violência e fragmentação do crime organizado em Mato Grosso do Sul.
