Apontado por autoridades europeias como um dos maiores traficantes internacionais de drogas das últimas décadas, o ex-major da Polícia Militar Sérgio Roberto de Carvalho começa a ser julgado nesta segunda-feira na Bélgica. Ele é acusado de comandar um esquema responsável pelo envio de toneladas de cocaína da América do Sul para a Europa, em uma trajetória marcada por fugas, uso de identidades falsas e uma complexa rede logística que conectava portos brasileiros a destinos estratégicos do tráfico no continente europeu.
Conhecido como “Pablo Escobar brasileiro” — em referência a Pablo Escobar — Carvalho ganhou notoriedade pela dimensão da operação que liderava e pela capacidade de escapar de investigações em diferentes países. Segundo apurações da Polícia Federal e de autoridades europeias, o grupo sob seu comando teria enviado ao menos 45 toneladas de cocaína entre 2017 e 2019, em um esquema avaliado em bilhões de reais.
O histórico criminal de Carvalho remonta aos anos 1980, quando já era investigado por contrabando. Na década seguinte, foi preso após a apreensão de uma aeronave com centenas de quilos de pasta base de cocaína em propriedade ligada a ele. Apesar de condenações e investigações ao longo dos anos, permaneceu na corporação por mais de uma década. Em 1998, foi condenado a 15 anos de prisão por tráfico e, posteriormente, voltou a ser sentenciado por movimentações financeiras ilegais envolvendo milhões de reais. Sua expulsão da Polícia Militar só ocorreu em 2010.
Após deixar o país, passou a atuar de forma ainda mais estruturada no tráfico internacional, sendo apontado como peça-chave na conexão entre a produção de cocaína na América do Sul e os principais mercados consumidores da Europa. De acordo com as investigações, a droga partia de portos como Porto de Santos e Porto de Paranaguá, com destino a centros logísticos como Antuérpia, Hamburgo, Barcelona e Lisboa, de onde era distribuída por redes locais.
Investigadores o descrevem como um articulador sofisticado, responsável por coordenar fornecedores, transporte e distribuição, utilizando empresas de fachada, aeronaves privadas e mecanismos complexos de lavagem de dinheiro.
Na Europa, Carvalho viveu sob identidades falsas e manteve um padrão de vida elevado. Em Marbella, chegou a se apresentar como empresário estrangeiro, utilizando o nome fictício de Paul Wouter. Durante a pandemia de COVID-19, protagonizou um episódio incomum ao simular a própria morte com um atestado falso, conseguindo sair temporariamente do radar das autoridades.
Mesmo assim, continuou sendo monitorado por organismos internacionais, incluindo a Interpol. Ele foi preso em junho de 2022 em Budapeste, portando documentos falsos. A captura desencadeou disputas entre países interessados em julgá-lo, como Brasil, Espanha, Estados Unidos e a própria Bélgica.
Extraditado para território belga, ele responde por acusações ligadas ao envio em larga escala de cocaína para a Europa e permanece preso desde então. O julgamento que começa agora ocorre após a anulação do processo anterior pela Justiça local, que identificou irregularidades na condução das audiências. Com um novo colegiado de juízes, o caso será reiniciado e deve reavaliar o papel de Carvalho em uma das maiores redes de tráfico internacional já identificadas.

